O dia em que procurei por Uma Estadia No Inferno

rimbb

Eu sou uma pessoa que não tem muita noção do tempo, mas nunca me atrasei para nenhum compromisso. Na verdade, sempre sou a primeira a chegar em todos os lugares que vou. Acho que a ansiedade é a grande culpada, mas isso não costuma ser um problema, às vezes. Em uma quarta-feira nublada, como costumam ser os dias de meu agrado, eu estava vibrando de alegria pois teria tempo de sobra para visitar algumas livrarias na movimentada Avenida 13 de Maio, antes de seguir direto para a faculdade. Eu pretendia procurar pelo livro ”Uma Estadia no Inferno” do Arthur Rimbaud. Eu precisava mais que tudo desse livro, pois, como leitora sinto que é a minha metade e também porque teria uma trabalho para apresentar sobre ele em alguns dias. Com a mesma calmaria de sempre eu saí de casa cedo e peguei o primeiro ônibus em direção ao Terminal do Siqueira, elemento crucial da minha rotina. Chegando lá, percebi que estava muito cedo, além disso a fila do 13 de maio/ Papicu/ Siqueira estava enorme. Achei melhor esperar outro ônibus. O primeiro chegou e a maioria das pessoas da fila entraram. Acabei me tornando a primeira da fila. Tudo estava perfeito. No entanto, o outro ônibus estava demorando demais, e com demais eu quero dizer demais mesmo! Eu comecei a olhar para o relógio repetidas vezes e só conseguia pensar: ”se eu tivesse pego o primeiro ônibus, com certeza já estaria lá”. Meu coração disparava, tremia, bobagem eu sei, mas era como uma explosão. Eu já não via mais a claridade do dia, a escuridão estava nascendo entre as nuvens e nada do ônibus. Comecei a ler tudo o que via pela frente. Li alguns nomes de lanchonetes e algumas notícias que passavam em um telão. Fiz de tudo para me distrair, mas o relógio continuava ali, implorando para que eu o olhasse a cada segundo. Quando já perdia as minhas esperanças, o ônibus apareceu, mas, mesmo assim, acreditei que só daria tempo para chegar na faculdade, pois teria uma reunião. Dentro do ônibus eu vi a Lei de Murphy tomar forma. Todos os sinais de trânsito pareciam utilizar apenas uma cor, o ”bendito” vermelho. Depois de passar por vários sinais avistei um engarrafamento enorme. Pronto, estava decidido, uma falta de ar me atingiu e percebi que aquele não seria o dia em que eu me encontraria com Rimbaud e a sua poesia. Quando o ônibus entrou na Avenida 13 de Maio, uma senhora começou a conversar comigo, dizendo que estava atrasada e que parecia que tudo havia se voltado contra ela naquele dia, era a lei de Murphy, fisgando mais uma vítima. Contei sobre a minha situação e ela foi dizendo: ”menina já estamos na 13 de Maio!”. Eu não havia percebido, mas a minha parada era a próxima. Levantei tão rápido que quase caí. Com pressa me despedi da senhora que lutava contra a Lei de Murphy, assim como eu. Desci em frente o Instituto Federal do Ceará, atravessei a avenida em direção da livraria que por coincidência, aliás, uma coincidência muito estranha, se chamava ”Livraria Rimbaud”. Eu já havia visitado ela umas duas vezes, mas nunca havia reparado no nome. Fiquei feliz, talvez aquilo fosse um sinal. Quando me aproximei percebi que a livraria estava fechando e minhas esperanças foram por água abaixo, de novo. Até que uma senhora muito simpática me perguntou se eu estava procurando por livros e disse que era dona da livraria e que ela não seria fechada naquele momento. Agradeci sem parar e entrei correndo. Já dentro da livraria, uma moça de cabelos coloridos me recebeu com um sorriso íntimo e perguntou qual livro eu procurava. Sem perder tempo falei que precisava de ”Uma Estadia no Inferno” do Arthur Rimbaud. A garota fez uma cara triste e me disse que os exemplares que tinham dele eram poucos e que alguém, pela manhã, havia comprado um de seus livros e provavelmente seria o que eu procurava. Eu sabia que aquele não seria meu dia. Mas, sem desistir, a moça dos cabelos coloridos se aproximou da prateleira e puxou um livro de capa vermelha em que um jovem de rosto sério e cheio de efervescência no olhar era coberto por grandes letras que diziam ”Uma Estadia no Inferno, Arthur Rimbaud”. Eu olhei para ela com um sorriso que tinha voz própria e dizia: ”esse dia não poderia ter sido melhor”. Depois de sair do meu principal destino naquela noite, segui em direção da faculdade saboreando o grandioso prazer de vencer Murphy.

Kariane

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