Sabatina

O sol que entra pela janela me toca e nada sente,

pele vaga e pequena, até mesmo inexistente.

Me acuso e tais rimas não apresentam nenhum valor.

Seria um texto, bem pequeno, mas nunca entendo onde estou.

Começo e navego pelas letras, foi solitário o que pensei,

me despeço e esqueço a prosa,

é solitário, mas eu voltei.

Kariane

(Momentos onde só a rima é capaz de surgir. Não entendendo nada, mas me permito)

Armário

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Meio dia e um sol terrível de queimar olhares. Bati com a cabeça três vezes no armário enferrujado da cozinha, eu nunca andei bem por lugares estreitos que trazem um odor antes esquecido. Minha mão insiste em querer começar o que não devo, é pecado te ver assim. Entre mim e a rua onde moro não existe um único ser humano que já tenha visto as estrelas, fixadas por pedaços velhos de plástico e uma luz que não me alcança. Eu continuo sozinha, marcada por permitir a presença do que aperta minha alma e carrega um cheiro doce de quem nunca volta, é como a presença de uma porta. É verdade que provavelmente a loucura de entender rotas da sua perna me deixam pequena, tão pequena que encontro o chão e o beijo, um beijo tão macio que esqueço a marca d’água que desce por mim, fria e madura.

Kariane

O gato

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A dor nas costas me levanta para o que sinto bem aqui, o estômago sangrando retoma e troca as dores pelas rosas do inverno, mortas e partidas. Não entendo os horários entre o café da manhã e o que chamam de jantar, o apetite é quase nulo para não irritar os ossos fracos do meu corpo. Imagino um andar noturno, delicado e silencioso atravessando escadas e corredores de madeira fina, é o passo da minha volta e despedida, sempre calado e esquecido, um anel de falsa ironia. Eu odeio joias ou qualquer objeto que encoste no meu corpo. É um corpo estremecido pela falta de fadas que cantam no alto da colina. Meu delírio é quase um cupido, a flecha até hoje faz o meu peito arder e o coração nada diz, somente implora.

Kariane

Bel-prazer

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Me encolho e lembro:

o meu cheiro não ativa memórias.

E nem é mais alto o meu tom,

de tal modo que nem piso no chão.

Sobre mim é onde sinto o passos

que pesam e perfuram

as poucas linhas da minha consciência.

Alta e baixa, descrevo.

Nunca me ensinaram o significado

das pequenas palavras que dão nome ao que sinto.

Tédio, em pleno verão.

Kariane

Carícia

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Faz tempo que eu não escrevo,

e me dói o braço pensar em dispensar a caneta.

Pega para mim? Eu sempre deixo cair papéis,

cartas e envelopes antes guardados em gavetas.

Tudo espalhado me impede de escrever,

a janela aberta leva embora todas as palavras.

Eu preciso de um ciclo inteiro para entender

que eu não pari frases completas, nem noções

estáveis.

É o texto que me devora,

passa a mão em mim,

me puxa,

e, por fim, escrevo.

Kariane

Casulo

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O movimento que você faz com a boca quando me vê caindo de um abismo baixo é quase ofensivo. Não entendo o que significa o traço entre o que você diz e escreve, nada me surpreende quando tenho que ler seus asfaltos, poesia concreta não faz minha cabeça. Deito com um certo simbolismo em uma cama escura, cercada pela pequena grama, onde a sensação se faz atrativa, quase que um beijo quente em pleno verão. Eu sou cheia de mim, não diga que não. Eu sou o que você não enxerga, mas por sorte, existo.  Traço o que é discutido. Minha saia rasgou e eu mesma costurei. Aprendi a costurar e também costurei você, um bordado sem linhas, não te fiz estrutura.

Kariane

Ciranda

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O que te afasta da minha cintura

é a fotografia que nunca sai da moldura

e te espanta entre os cômodos quebrados

do seu recinto particular.

Roupa,

um vestido velho, tecido antiquado

para espaços pequenos e manobras sinuosas

entre mim e ti.

É o trato,

mania de verso solto entre um sofá rasgado

e um quarto esquecido,

sentido,

pare, é a minha perna, não você.

Calço o menor pedido e

me perco em um quarto esquecido

por você.

Ciranda.

Kariane

Peito

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Não me movi por três dias,

desafio musical sobre uma corda leve entre a minha pequena

memória

e o traço perdido em meu pescoço oco.

Mais tarde me ligam,

cansei da ressaca, tragam tragos e traços

de passos cansados de espaço soltos

entre um carro estacionado na avenida

onde comprei minha primeira história de morrer, sem fôlego.

Foi o que me contaram antes de sair de casa

entre duas portas sensatas de um passo lento

entre a Barão do Rio Branco, perdida.

Bobagem, um bar, bem aqui.

Kariane

O Caso do Museu

(Pequena história fictícia antes esquecida em um caderno velho e agora transmitida na blogosfera, termo antiquado, mas sempre íntimo. Provavelmente nunca será finalizada, mas enfim, está tudo bem)

***

Eu sempre fui a única pessoa da minha família a visitar museus, e, consequentemente, a única que fazia esse caminho peculiar aos domingos. Nesse dia, tão detestável da semana, era quando a minha mãe cozinhava para 20 e não para 2, era quando meu pai assistia os campeonatos europeus de futebol e quando o meu irmão visitava sua namorada, era o único dia que eles tinham para se ver, e, com certeza, para transar. Meu irmão sempre reclamava do fato de nossa casa ter somente um banheiro. Eu sabia bem o porquê. Imbecil, posso dizer, ou talvez apenas um cretino sem criatividade, afinal, eu nunca precisei do banheiro para as orgias individuais, meu quarto era o meu oásis.

Naquele domingo quente, resolvi, como de costume, ir ao velho Museu da História Nacional. Peguei minha mochila e guardei o necessário para a minúscula viagem: uma câmera, um óculos de sol, As Relações Perigosas*, meu celular, um bloco de notas e uma caneta. Eu gostava de organizar todos aqueles objetos de forma bastante alinhada, não queria que tudo virasse uma zona dentro da minha mochila. Me despedi de todos em casa e segui em direção do meu destino comum.

Andei pela avenida principal com a mesma saia do domingo passado. Ela era curta, como eu gostava, por mais que detestasse minhas pernas esguias. Além disso, inúmeras zebras formavam a estampa divertida e um pouco triste sobre o tecido fino. Eram exatamente 14h quando cheguei no Museu. Antes mesmo de entrar senti aquele cheiro intenso de coisa velha, era o que eu amava. Entrei sem demora e nem notei o guarda exigindo que eu deixasse minha bolsa no balcão de entrada. Eu sempre esquecia, ansiava em correr por aquele lugar. Fiquei somente com meu bloquinho em mãos e uma caneta, costumava anotar reflexões repentinas que surgiam durante o passeio. Essa era a minha vida aos domingos.

Estava ao lado de uma exposição de bordados, a qual me encantava por representar as artesãs que trabalhavam com esse tipo de arte, quando alguém parou ao meu lado e na mesma posição, sem dimensões, apreciou aquele manjar de linhas. Quando me virei para o lado, curiosa que sou, encontrei não um homem, mas um olhar castanho que por alguns segundos também foi de encontro ao meu.

*Les liaisons dangereuses (As Relações Perigosas), de Choderlos de Laclos.

Há 15 dias eu não uso sutiã

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A minha espera é quase mínima, quando enxergo o meu olhar,

dentro de casas vazias, onde, bem perto, eu costumava dançar.

Afastando feito porta os intestinos da imaginação,

casei muito nova, mesmo insistindo em dizer não.

Sou sozinha, tranco a porta, agradeço pelo par,

anoitece e ela minha, ele é meu, mas quem será?

Não sou caso, nem descanso, nem olhar para saciar,

sou metade, peito cheio, mas não sei onde vai dar.

Me esqueço, lembro os vícios, sou menina, sinto frio,

volto tarde e caminho, e caminho, e caminho…

Kariane