O Caso do Museu

(Pequena história fictícia antes esquecida em um caderno velho e agora transmitida na blogosfera, termo antiquado, mas sempre íntimo. Provavelmente nunca será finalizada, mas enfim, está tudo bem)

***

Eu sempre fui a única pessoa da minha família a visitar museus, e, consequentemente, a única que fazia esse caminho peculiar aos domingos. Nesse dia, tão detestável da semana, era quando a minha mãe cozinhava para 20 e não para 2, era quando meu pai assistia os campeonatos europeus de futebol e quando o meu irmão visitava sua namorada, era o único dia que eles tinham para se ver, e, com certeza, para transar. Meu irmão sempre reclamava do fato de nossa casa ter somente um banheiro. Eu sabia bem o porquê. Imbecil, posso dizer, ou talvez apenas um cretino sem criatividade, afinal, eu nunca precisei do banheiro para as orgias individuais, meu quarto era o meu oásis.

Naquele domingo quente, resolvi, como de costume, ir ao velho Museu da História Nacional. Peguei minha mochila e guardei o necessário para a minúscula viagem: uma câmera, um óculos de sol, As Relações Perigosas*, meu celular, um bloco de notas e uma caneta. Eu gostava de organizar todos aqueles objetos de forma bastante alinhada, não queria que tudo virasse uma zona dentro da minha mochila. Me despedi de todos em casa e segui em direção do meu destino comum.

Andei pela avenida principal com a mesma saia do domingo passado. Ela era curta, como eu gostava, por mais que detestasse minhas pernas esguias. Além disso, inúmeras zebras formavam a estampa divertida e um pouco triste sobre o tecido fino. Eram exatamente 14h quando cheguei no Museu. Antes mesmo de entrar senti aquele cheiro intenso de coisa velha, era o que eu amava. Entrei sem demora e nem notei o guarda exigindo que eu deixasse minha bolsa no balcão de entrada. Eu sempre esquecia, ansiava em correr por aquele lugar. Fiquei somente com meu bloquinho em mãos e uma caneta, costumava anotar reflexões repentinas que surgiam durante o passeio. Essa era a minha vida aos domingos.

Estava ao lado de uma exposição de bordados, a qual me encantava por representar as artesãs que trabalhavam com esse tipo de arte, quando alguém parou ao meu lado e na mesma posição, sem dimensões, apreciou aquele manjar de linhas. Quando me virei para o lado, curiosa que sou, encontrei não um homem, mas um olhar castanho que por alguns segundos também foi de encontro ao meu.

*Les liaisons dangereuses (As Relações Perigosas), de Choderlos de Laclos.

Há 15 dias eu não uso sutiã

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A minha espera é quase mínima, quando enxergo o meu olhar,

dentro de casas vazias, onde, bem perto, eu costumava dançar.

Afastando feito porta os intestinos da imaginação,

casei muito nova, mesmo insistindo em dizer não.

Sou sozinha, tranco a porta, agradeço pelo par,

anoitece e ela minha, ele é meu, mas quem será?

Não sou caso, nem descanso, nem olhar para saciar,

sou metade, peito cheio, mas não sei onde vai dar.

Me esqueço, lembro os vícios, sou menina, sinto frio,

volto tarde e caminho, e caminho, e caminho…

Kariane

Esqueci metade de mim em uma escada

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Ele abriu a porta devagar e não percebeu o vento levantando a minha saia. Ele me olhou, estava tão sério que senti vontade de rir. Ele me conhecia, somente pela pele. Eu vi um gato e um prato vazio. Não conseguia enxergar mais nada. É o nervosismo, me diriam, afinal, não conheço nada sobre a vida, a não ser o fato de não desejá-la com a mesma frequência que as outras pessoas a desejam. Ele perguntou por diversas vezes a minha idade, e sorriu. Imbecil. Não conseguia entender, mas aquela casa parecia, de uma forma fantástica, o meu quarto. Era tudo muito organizado. A bagunça eu reservava para cômodos internos. Eu sabia de tudo, me aproximei e briguei com meu pé que insistia em doer naquele momento intenso que era deitar no velho sofá com cheiro de aromatizador de carro. Tudo muito esquisito. O gato me encarava e por um pequeno instante, dormiu, sem reclamar.

18h

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Na janela do ônibus,

narrativas vivas.

Encontrei metade de mim em um pedaço de plástico

que jogaram na escada suja,

onde uma menina tropeçou ao descer do ônibus.

Não costumo pegar coisas do chão.

Nem ler Ginsberg.

Atalho

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Escrevi metade das minhas cartas no dia planejado.

Caneta, papel, borracha, quase não acho meu sapato.

Tem um cesto vazio ao meu lado e uma camisa no chão.

Escrevi metade das minhas cartas, mas penso que não.

Penso que o quadro está meio para cá,

mas o quadro insiste em zombar do que pensei ser a anatomia da mobília,

quase caí em desespero das pequenas praias do meio dia

onde decidi cantar a última música de passos lentos,

porque nunca aprendi a dançar.

Aprendi que não sou vidente, nem você,

calcei o primeiro sapato e lembrei que a poesia nunca é passado,

é presente.

Não me engano pelo fato de uma palavra causar uma tragédia,

é quase um engano saber ler, quando de fato a facada letal

vem do sadio momento em que me escondo na cozinha,

por causa da janela, por causa da janela.

Conheço ela, mas só de vista, quando olho no espelho

e o rebuliço de uma caixa vazia me lembra que de fato

existir é o ato mais caótico de mim/ti.

Kariane

Machado

E eu me perguntei o porquê de sempre lembrar.
A memória é como um machado primitivo,
aprendi a usá-la e agora sei da sua utilidade.
Queria não saber de nada.
Fechar os olhos diante do sublime que me aflige
quando percebo que a imagem borrada se reflete aqui.
Eu não pedi metade dessa fotografia que me traz lembranças
do que foi dito por um alguém que me arrancou um fio de cabelo
e fez dele um candelabro de anedotas,
que fez da pele uma carne morta e das palavras
o mau agouro.

Kariane

Canindé

Ao visitar o São Francisco,

Terra do calor e sem mar,

me senti quase um menino

solto no quintal a brincar.

 

Mas, de fato, sou uma menina

que carrega no triste olhar

o sonho de encher uma bacia

e com água as roupas lavar.

 

Passa o tempo e a cantoria

e eu não aprendo a lidar

com a seca da minha terrinha,

sem mato, sem fruto e sem mar.

 

Me pedem para sentar na escada

e com paciência esperar

que a infância seja lavada,

pois meu futuro é casar.

 

Fujo para o seco milharal

e peço para Deus afirmar

qual será meu destino afinal,

pois o que eu quero é cantar

 

as músicas da minha terrinha

e ao mar um beijo longo entregar.

 

Kariane

(Para minha avó)