Rascunho Interno

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Espero entre duas paredes tortas o que não vejo em mim. Percebo bem perto da porta uma imagem caótica sobre o fim. Enxergo a margem da minha cintura e o calor de uma cortina que chora pelas bordas e despenca sobre o teu corpo. Os versos costumam não ter sentido quando se é jovem. Engano deles, sonhamos de tal forma que a falta de um abraço é derrota e escrevemos sem medo na contracapa do caderno sobre o dia em que finalmente viveremos. É difícil falar sobre a minha saúde quando o verdadeiro diagnóstico eu só encontro quando me vejo em ti. Armada e duvidosa sobre como a falta me elimina da existência e me transforma, por fim, em mim mesma.

Kariane

 

O choro do pássaro

A felicidade é uma semente de girassol. Eu já não sabia mais qual livro colocar na mochila da faculdade enquanto ao mesmo tempo olhava para o tempo. O céu estava nublado, mas o calor era daqueles de querer ficar nua o dia todo, talvez a vida toda. Troquei a calça por uma saia. Minha mãe gritava meu nome, eu poderia contar quantas vezes ela me chamou e quantas vezes eu respondi “Já vou!”, mas eu não queria ir. Convenhamos, eu não queria ir para lugar nenhum, acho um absurdo sair assim, sem entender nada, nem sentir nada. Eu olhei para os lados e não encontrei os livros que havia acabado de colocar em cima da cama. Como sumiram? Eu perco as coisas com uma facilidade imensa, isso é certo. Os livros estavam atrás de mim, senti uma raiva que depois passou, minha música preferida tocou. Escutei minha mãe gritando novamente, eu estava com tanto calor que nem percebi, corri para o banheiro e molhei os pés, grande solução. Fiquei uns dez minutos nesse ritual, quem sabe ela para de me chamar? Quem sabe meu banheiro não é um portal? Alguém me tire daqui. Enxuguei os pés com uma toalha velha que depois joguei em cima da cama lotada de tralhas. Como consigo dormir nisso? Minha mãe gritou mais uma vez, resolvi descer. Fui bem devagar e no caminho olhei para a janela aberta do quarto de minha mãe, fazia tempo que aquela janela não era aberta, sinto uma brisa, fria, o suor se espalha e por um momento me sinto. Minha mãe estava com várias contas na mão e gritou comigo por causa da demora. Dizia ela “Onde já se viu, te chamei tantas vezes menina escondida!”. Abri a geladeira para pegar um pouco de água, meu alimento matinal. Vi um pedaço de queijo que ninguém quis, pobre queijo, rejeitado só porque era o último do pacote. Me sentei na mesa e olhei para o portão que estava um pouco aberto, me assustei e pensei em algumas possibilidades do porquê de ele estar assim. No momento, ainda pensando no portão, empurrei a mesa com uma força que eu não sabia que tinha. Doía, a única coisa que eu conseguia pensar era o quanto doía. Sangrava. Chorei como um bebê com saudade da barriga da mãe. Chorei e gritei, mordi os lábios e solucei, fiz algumas caretas e consequentemente continuei a chorar. Chorei tanto que uni lágrimas com palavras. Palavras e lágrimas eram os meus dilemas durante algum tempo de choro e dor. Sentei no chão, olhei para minha mãe, enquanto ela pegava água e gelo. O papagaio dela havia mordido meu dedo. Ele voou para longe com o meu grito e nem viu meu choro intenso. Depois de todo o choro senti um alívio, bem dentro do meu peito, da minha pele, dos meus ossos, não sei, mas era um alívio. Chorei tanto que o choro serviu para todas as dores que não foram choradas antes. Eu tinha tomado um verdadeiro banho, dessa vez não foram só os pés. Minha mãe colocou o tal do papagaio na gaiola e imediatamente eu o tirei. Eu não sabia que os animais eram videntes.

Kariane

Metamorfose

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Sou uma borboleta. Nem me perguntem o porquê. Só nunca consegui ser gente, escolhi ter patinhas e asinhas que pesam sobre mim. Como algo delicado pode pesar tanto?

Senti que aquele dia seria um desespero, coração não aguenta o toque da sua mão, coração não entende metade disso. Abri a porta e vi uma sala escura, fria, pequena. Acender a luz é normal, mas não acendi, porque você estava ali. Te vi. Fiquei ao seu lado, mas não tranquei a porta, porque a porta era de vidro, tenho medo de objetos de vidro ou qualquer coisa que por qualquer bobagem se quebre em pedacinhos. Me importo demais. Continuava escuro, mas a luz que vinha da porta foi de encontro ao seu olho. Não olhe para mim. Coração não aguenta olhares. Percebi que seria inevitável viver ali, estava com fome e sem possibilidades. Você me dá medo, mas eu tenho medo de tudo, talvez isso seja um elogio “eu te-nho me-do de vo-cê”. Você não fala? Esperei uma palavra, uma única palavra. Você abriu a boca, tão devagar, quase contei os segundos que duraram. Fale. Me diga alguma coisa que me faça esquecer o medo de portas de vidro. Você fez algo que eu não esperava. Por que fez isso? Você tocou minha mão. Olhou entre os meus dedos, cavernas que não compreendo. Discurso. Era como o primeiro passo, a primeira palavra, a primeira queda ou a primeira metamorfose.

Kariane

 

Chanson de la plus haute tour (Canção da mais alta torre)

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Ociosa juventude
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! Que venha o dia
Em que os corações se amem.

Eu me disse: cessa,
E ninguém te via:
E sem a promessa
De mais alta alegria.
Que nada te detenha,
Grandiosa retirada.

Tive tanta paciência
Que para sempre esqueço;
Temor e penitência
Aos céus partiram.
E a sede doentia
Me escurece as veias.

Assim o prado
Ao esquecimento deixado,
Engrandece, e floresce
De joio e incenso
Ao zumbir tenso
De cem moscas sujas.

Ah! Tanta viuvez
Da alma que chora
E só tem a imagem
Da Nossa Senhora!
Será que se ora
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
A tudo oprimida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! Que venha o dia
Em que os coraçõres se amem!

Arthur Rimbaud

[Feira das Poesias] Agora no Instagram e no Twitter

A dona desse blog, vulgo Kariane, nunca foi uma pessoa “online”, o máximo de redes sociais que sempre teve nunca passava de 3. Algumas pessoas não se encaixam na vida virtual. A mesma, acredita que o único veículo da vasta internet que a encantou de verdade, durante, digamos, a infância, foi o falecido Orkut, com seus joguinhos que tiravam metade do seu tempo.

Saindo da terceira pessoa só vim convidar vocês a seguir o blog também no instagram e no twitter, acredito que vou conseguir manter nosso conteúdo (somos vozes) atualizado aqui na Feira e nas redes sociais também. Uma ótima semana para todos e todas!

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[Livro] Romeu e Julieta, de William Shakespeare

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Pode-se dizer que Romeu e Julieta é a obra mais conhecida de William Shakespeare, o que é incontestável, visto que essa história de amor e ódio ultrapassou todas as formas de arte, sendo representada inúmeras vezes no cinema, além do teatro, é claro.

Shakespeare nos mostra, no que pode ser visto pelo externo da obra, uma história entre dois jovens que se amavam intensamente, e por não obedecer as condições exigidas pelos seus pais, tiveram um desastroso fim. O que não podemos deixar passar despercebido é que o fim desses dois personagens corajosos não é culpa do amor, mas sim da disputa entre duas famílias, do egoísmo e da individualidade que traz a guerra.

ATO II

CENA II

Romeu: Zomba da dor quem nunca foi ferido.

A história se passa em Verona, onde há uma rivalidade entre a família dos Capuletos e dos Montéquios. Romeu, filho de Montéquio, possui uma grande paixão por Rosalina, moça que ao seu ver é inalcançável.  Ao descobrir que acontecerá um baile na morada dos Capuletos e que Rosalina também irá, Romeu vê a oportunidade de ir de encontro ao seu amor. Por embaraço do destino, naquele mesmo baile, o jovem Romeu enxerga uma moça de grande beleza e encantos. Essa moça não é Rosalina, mas, Julieta, filha dos Capuletos. Ao ter conhecimento de Romeu, Julieta também se entrega a efervescência da paixão. Esse amor, nutrido entre a rivalidade, desencadeará um fim trágico, um fim “shakesperiano”.

Editora: Nova Fronteira

Páginas: 114

 

Teoria do Cansaço

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Horizontes Móveis, Carlos Macedo.

Teoria do cansaço.

Enquanto coloco a pedra no sapato

e não me importo em passear,

já prevejo um embaraço

e o meu desejo é desandar

e voltar pra minha terrinha,

como num passo a manejar

a teoria do engraçado

que é rir sem gargalhar.

Vejo vulto, vejo mato.

O meu destino é caminhar.

(Para meu avô Luís, contador de histórias.)