Canindé

Ao visitar o São Francisco,

Terra do calor e sem mar,

me senti quase um menino

solto no quintal a brincar.

 

Mas, de fato, sou uma menina

que carrega no triste olhar

o sonho de encher uma bacia

e com água as roupas lavar.

 

Passa o tempo e a cantoria

e eu não aprendo a lidar

com a seca da minha terrinha,

sem mato, sem fruto e sem mar.

 

Me pedem para sentar na escada

e com paciência esperar

que a infância seja lavada,

pois meu futuro é casar.

 

Fujo para o seco milharal

e peço para Deus afirmar

qual será meu destino afinal,

pois o que eu quero é cantar

 

as músicas da minha terrinha

e ao mar um beijo longo entregar.

 

Kariane

(Para minha avó)

 

 

O dia em que eu descobri o bordado

Eu sempre compreendi a dimensão das palavras, sempre enxerguei a força que um conjunto de letras possui e visualizei tudo isso, especialmente, através da poesia. Tudo acontece como um soco no estômago ou como o bater de asas de uma borboleta. É doce ou machuca. As palavras têm vida. Escrevo, logo existo. Desculpa, Descartes, sou confusa mesmo.

Às vezes certos diagnósticos da vida nos sufocam o tempo inteiro (olá, ansiedade) e buscamos meios de fugir de tudo isso, correr. Corra, Kari, corra.

Por muito tempo eu desenhei, gostava de ampliar pequenos desenhos que via nas revistas em quadrinhos. Mas um dia eu parei, pelo simples fato de não achar que os desenhos eram bons o bastante. Boba, nada é bom o bastante, só é bom, e suporta.

Um dia de ócio me levou a voltar a desenhar, não sabia o porquê mas eu precisava. Mas faltava algo, sei lá, algo que talvez trouxesse mais vida? Não sei, loucura minha. Resolvi bordar. Comprei os materiais sem saber como colocar a linha na agulha e sem saber qual tecido escolher, mas fui atrás, sem saber de muita coisa, mas, confiante.

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Na foto acima podemos ver o meu primeiro bordado. Fiz vendo um vídeo aleatório no youtube, achei fácil e também gostei do que dizia. Ame-se. Como vocês podem ver, eu comprei o tecido errado. Tudo bem, depois eu concertei esse acaso.

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Depois de escrever ame-se eu queria algo que realmente gritasse o que eu sou, o meu todo. Pensei em poesia, nossa, poesia, eu sou você, às vezes. Mas eu sabia que havia algo além, um tema maior. Literatura era o que eu queria. Agora com o tecido certo!

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Mas teve um certo ciúme no ar. Sabia que o Rimbaud ia se meter em toda essa história, ele sempre está comigo, bordar seu nome e uma rosa (minha flor preferida) era o mínimo que eu poderia fazer para meu jovem terrível. Não dá para ver muito bem, mas eu comecei a rosa com um tipo de vermelho e terminei com outro, porque o primeiro acabou e a outra cor eu comprei errada. Caminhei demais por você Rimbaud, obrigada.

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Quando eu bordo me sinto mais próxima de mim, um contato com o eu que diz “faz”, eu sou o todo. Minha mãe é artesã, será genética ou pura poesia dessa vida inacabada?

Kariane

 

Um outro mar

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Eu tenho medo.

Paciência no passo

do calçado da minha irmã.

Fortaleza é aqui,

no teu ombro amigo

que me aconchega de manhã

quando teimo em insistir

que tenho medo.

Será medo de mim?

Um dia viajo para o Piauí.

 

Com você.

 

Kariane

 

(Pequeno presente para minha irmã, que sonha em conhecer o mundo. Por sorte ela já sabe que é possível viajar com as palavras, até com as pequeninas palavras.)

Onde a lágrima atravessa a rua

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Florence Sène – 2018 

I

Onde a lágrima atravessa a rua

eu beijo a sua boca nua

que dobra no próximo quarteirão.

Eu me perdi. Me deixaram na avenida

cantando com várias crianças

que antes da minha chegada

gritavam pelo fim desse concreto

que separa o mar da calçada

e da barraca da Dona Flor,

onde eu compro minhas quentinhas

e algumas cartas de amor.

II

Eu desci sozinha uma avenida estranha,

carros vermelhos passaram por mim

e entregaram a falta que sinto da cor,

da saída e da pausa de um passo

que não consigo alcançar.

Será, que me permito, de fato, andar?

Kariane

Ne pleure pas, ton chagrin est le mien…

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Era quase noite quando o Imaginário ao lado da porta fixava uma cabeça bem perto do seu coração. Espaço vazio seria se fosse um braço, uma perna ou um pescoço. De fato, uma cabeça era essencial ao lado do órgão que por sinal não funcionava mais. Era um coração velho e com cortes causados pelos fortes ventos do verão. Perto da bancada, onde alguns livros de história pousavam, estava mais uma cabeça que olhava o feito do Imaginário, enquanto a primeira cabeça gritava por não entender o motivo de se encontrar fora da sua casa. As duas cabeças dialogavam, mas o velho coração chorava esperando estar ao lado da pele lisa e dos cabelos que não tinham formato. O encaixe se fez. A segunda cabeça encarava o sangue que caia e por fim cessava pelo corpo do Imaginário, a cena se fez tão bonita que os olhos da primeira cabeça começaram a chorar, o coração se banhou de lágrimas e sem esperar qualquer tipo de pergunta, adormeceu. O Imaginário andou pelo seu pequeno quarto e sentou no chão próximo a segunda cabeça e a beijou, bem abaixo do queixo, onde a marca do que nunca foi dito se encontrava em vermelho. Era quase dia quando se via pela janela um rosto e um pescoço que conversavam sobre os efeitos da presença e o fardo da ausência.

Kariane

Rascunho Interno

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Espero entre duas paredes tortas o que não vejo em mim. Percebo bem perto da porta uma imagem caótica sobre o fim. Enxergo a margem da minha cintura e o calor de uma cortina que chora pelas bordas e despenca sobre o teu corpo. Os versos costumam não ter sentido quando se é jovem. Engano deles, sonhamos de tal forma que a falta de um abraço é derrota e escrevemos sem medo na contracapa do caderno sobre o dia em que finalmente viveremos. É difícil falar sobre a minha saúde quando o verdadeiro diagnóstico eu só encontro quando me vejo em ti. Armada e duvidosa sobre como a falta me elimina da existência e me transforma, por fim, em mim mesma.

Kariane

 

O choro do pássaro

A felicidade é uma semente de girassol. Eu já não sabia mais qual livro colocar na mochila da faculdade enquanto ao mesmo tempo olhava para o tempo. O céu estava nublado, mas o calor era daqueles de querer ficar nua o dia todo, talvez a vida toda. Troquei a calça por uma saia. Minha mãe gritava meu nome, eu poderia contar quantas vezes ela me chamou e quantas vezes eu respondi “Já vou!”, mas eu não queria ir. Convenhamos, eu não queria ir para lugar nenhum, acho um absurdo sair assim, sem entender nada, nem sentir nada. Eu olhei para os lados e não encontrei os livros que havia acabado de colocar em cima da cama. Como sumiram? Eu perco as coisas com uma facilidade imensa, isso é certo. Os livros estavam atrás de mim, senti uma raiva que depois passou, minha música preferida tocou. Escutei minha mãe gritando novamente, eu estava com tanto calor que nem percebi, corri para o banheiro e molhei os pés, grande solução. Fiquei uns dez minutos nesse ritual, quem sabe ela para de me chamar? Quem sabe meu banheiro não é um portal? Alguém me tire daqui. Enxuguei os pés com uma toalha velha que depois joguei em cima da cama lotada de tralhas. Como consigo dormir nisso? Minha mãe gritou mais uma vez, resolvi descer. Fui bem devagar e no caminho olhei para a janela aberta do quarto de minha mãe, fazia tempo que aquela janela não era aberta, sinto uma brisa, fria, o suor se espalha e por um momento me sinto. Minha mãe estava com várias contas na mão e gritou comigo por causa da demora. Dizia ela “Onde já se viu, te chamei tantas vezes menina escondida!”. Abri a geladeira para pegar um pouco de água, meu alimento matinal. Vi um pedaço de queijo que ninguém quis, pobre queijo, rejeitado só porque era o último do pacote. Me sentei na mesa e olhei para o portão que estava um pouco aberto, me assustei e pensei em algumas possibilidades do porquê de ele estar assim. No momento, ainda pensando no portão, empurrei a mesa com uma força que eu não sabia que tinha. Doía, a única coisa que eu conseguia pensar era o quanto doía. Sangrava. Chorei como um bebê com saudade da barriga da mãe. Chorei e gritei, mordi os lábios e solucei, fiz algumas caretas e consequentemente continuei a chorar. Chorei tanto que uni lágrimas com palavras. Palavras e lágrimas eram os meus dilemas durante algum tempo de choro e dor. Sentei no chão, olhei para minha mãe, enquanto ela pegava água e gelo. O papagaio dela havia mordido meu dedo. Ele voou para longe com o meu grito e nem viu meu choro intenso. Depois de todo o choro senti um alívio, bem dentro do meu peito, da minha pele, dos meus ossos, não sei, mas era um alívio. Chorei tanto que o choro serviu para todas as dores que não foram choradas antes. Eu tinha tomado um verdadeiro banho, dessa vez não foram só os pés. Minha mãe colocou o tal do papagaio na gaiola e imediatamente eu o tirei. Eu não sabia que os animais eram videntes.

Kariane