Memória

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Havia uma casa escura no fundo da sua rua. Essa casa não tinha portas e as janelas estavam todas quebradas. Os ruídos que vinham dos poucos pedaços de madeira que restavam naquele lugar, onde se podia apreciar o nascer do sol, te assustavam na hora de dormir. O mato estava crescendo, não parava, eram como lágrimas de despedida. Havia também um gato morando naquela casa, às vezes, você tentava tocar nele, mas o mesmo não deixava. Pobre gatinho, tinha um olhar triste e miava ao longe, parece que te chamava, implorava, mas, o medo também fazia parte dos olhos daquele animal. O telhado quase não existia. Quando chovia você reclamava que o cheiro dos móveis molhados ficava insuportável. Os móveis em que você brincou. A cômoda onde você subiu e recitou seu primeiro poema sobre amor. Uma vez você me contou que um homem saiu da casa com uma mulher ao seu lado e você ainda se pergunta o porquê de ter chorado. Você me disse que ficou parado, quieto, olhando os dois saírem da casa rindo, enquanto o homem barbudo e de braço machucado terminava de quebrar o portão da velha casa. A sua lembrança, ele quebrava a sua lembrança. Você brincou naquele portão, até prendeu seu dedo uma vez nele. A lembrança era o que estava doendo e você também me contou que seu peito ”explodiu” causando um desmaio. Era o seu coração pulsando e gritando para que não machucassem a sua única lembrança de quando você tinha 7 anos e sonhava em uma casa que não era sua, mas era verdadeiramente viva. Quando você acordou do desmaio, nem acreditou no que pode ver, um gato ao seu lado, te encarava, e nos olhos dele você lia “coragem”.

Kariane

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20, quase 16

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Gostei muito dessa foto, olhos fechados.

Hoje é meu aniversário de 20 anos e resolvi dedicar algumas palavrinhas para mim. Espero que o dia seja lindo!

O aperto no peito,

a falta de ar,

o cansaço nos olhos

e o sorriso torto

são o tempero

da tua natureza.

Extrema beleza

nas tuas asas.

Chuva

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Uma das poucas fotos que tirei esse ano com os olhos abertos.

Abstrata é minha dança.

Quando pulo venço o passo

e o aconchego de um abraço

se torna um forte veneno.

Abstrata é minha coluna

que dá giros de madrugada

enquanto percebo que não há nada

passeando na minha rua.

Abstrata é a razão de possuir esse sentimento.

“Que sentimento?” Me perguntam.

Meu coração, inconsistente,

um abismo baixo.

Abstrato são meus passos

que de tanto caminhar

imploram pelos passeios

e pelos calos que contam mais histórias

que o  velho livro da minha avó.

Abstrato é o meu olhar,

sempre escondido, evitando encarar,

mas nunca, jamais, em momento algum,

vazio.

Kariane

Pensamentos da Minha/Sua Juventude

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Doublefaced No. 30, Sebastian Bieniek.

Hoje o dia está lindo para ler Rimbaud. Na verdade, a minha realidade se depara constantemente com esse jovem poeta. Lendo um de seus poemas, onde ele diz que “On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans” lembrei de um velho diário guardado na minha gaveta que eu adquiri aos 16 anos, se não me engano. Quando o folheei fiquei contente com muitas coisas que escrevi nesse pequeno mundo, até que me deparei com pequenos escritos aleatórios que não parecem fazer sentido jogados na folha, mas que ao lê-los sorri sem parar. São pequenos versos que não lembro quando escrevi, nem onde, mas que aparentemente querem me dizer muita coisa. Parecem se dividir em fases, onde eu me sinto uma criança e não sei entender a minha juventude, ou talvez prepare uma fuga de mim, uma maratona que me leve para longe dos pensamentos ou talvez me entregue a eles. Bom, decidi compartilhar esses simples e pequenos versinhos com vocês. Meu mais sincero abraço.

Observações:

  • Estão escritos como no velho diário.
  • Ao lado de cada escrito farei pequenos comentários que estão em negrito.
  • Amigos, valorizem cada palavra que surge em suas mentes e imploram para que busquem a caneta ou o lápis.

 

Pulando atos… (Essa parte se refere a uma pequena história que eu estava escrevendo nas páginas anteriores.)

Sozinha nos dias mórbidos eu enfrento sozinha as pessoas sozinhas que continuam sozinhas por não saber lidar com ninguém. (Há uma pequena flor desenhada embaixo desse escrito. Ainda me pergunto o porquê da minha pessoa sempre engolir as vírgulas. Acho que gosto da sensação de falta de ar que dá ao ler algo com pressa.)

Tirei uma foto sua, tropecei duas vezes na rua, avistei uma carnaúba e fugi sem parar. (Outra flor se encontra desenhada embaixo desse verso. A juventude é como um jardim.)

Dor na perna, bolhinha, andando sozinha caí do primeiro andar. (Avisto aqui meus momentos solitário que são bem mais solitários do que no primeiro escrito.)

O meu sangue passa por uma veia de flores, chegando no coração ela deságua no mar. (Embaixo desse verso há várias flores. Seriam as minhas veias? Busco me entender no oceano de sensações que é a criação das palavras.)

Ausência

E eu me avisei por um pequeno instante, mas que vontade de escrever enquanto você vai embora. Escrever sobre o seu passo lento que não me acompanha, escrever sobre a sua visita que é sempre tão rápida (às vezes infinita) e escrever sobre a raiva de saber que mesmo o seu pensamento longe, finjo que está aqui perto. Você é mais complexo (a) que a minha filosofia, uma grande macieira. Sua mão é quente e não combina com as minhas que descascam e secam com o sol e a tristeza do acaso que é encontrar você até na rua que eu não costumo passar ou na escola que visitei durante um passeio. Pausa. Quando se tenta escrever, até a palavra “sofá” se torna um guia, mas você me procura entre as linhas e grita bem alto, ao meu lado, sobre o nada que é sem você aqui, sem você aqui, sem você aqui, sem você aqui, sem você aqui. Você chora, eu acho, às vezes penso que sim. Eu não choro enquanto não te enxergo mais, eu suspiro e peço uma água no primeiro bar e avisto as moças da rua e tento entrar em seus pensamentos, escutar suas histórias. Mas você grita, de novo, baixinho, sussurra. Eu nasci das palavras. Amplitude na minha alma. E na sua alma? Ausência.

Kariane

Saudade

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Entre os olhares trocados com você

pensei que fosse falar de amor

ou de uma tristeza infinita.

Mas, amar é como uma gíria,

linguagem momentânea.

As palavras são fáceis de serem esquecidas,

os olhares talvez não,

porque penetram profundamente,

bem dentro de minha carne,

e perfuram tudo o que era blindado.

Mas o coração não deixa cessar

quando a única palavra que você diz

é o tal do verbo sonhar.

Kariane

 

 

[Livro] A Delicadeza, de David Foenkinos

downloadJá meio atrasada, venho indicar esse livro perfeito para o dia dos namorados. Mas, não pensem em algo muito clichê, como um amor que não é correspondido até que finalmente dois distantes se tornam recíprocos. A Delicadeza, de David Foenkinos, vai além, e transforma o amor em uma incógnita diante de certos fatos.

Em A Delicadeza temos a história de uma jovem chamada Nathalie (Nathalies costumam ser nostálgicas) que em um dia qualquer acaba esbarrando com um homem chamado François, e ambos vivem a situação almejada por muitos, o tal do amor à primeira vista. Depois de alguns anos juntos, uma tragédia ocorre e causa tumulto na vida de Nathalie. François é atropelado enquanto corria. E nesse instante a história vai focar na jovem, que depois do triste acontecido se vê sozinha, confusa e cercada de olhares de amigos e familiares que não a agradam. Ao refletir todos os dias sobre o porquê das coisas, Nathalie se aproxima de um homem tímido, conhecido por ter decepções amorosas, e ambos compartilham de sentimentos que eles não esperavam.

”todos estavam presentes no dia do enterro. Todos na região onde François passara a infância. Ele ficaria contente com essa multidão toda, pensava ela. Não, nada disso, é um absurdo pensar esse tipo de coisa. Como é que um morto pode ficar contente com qualquer coisa que seja? Naquele processo de decomposição entre quatro tábuas, como poderia estar feliz? Caminhando atrás do caixão, cercada por seus próximos, Nathalie teve outro pensamento: são os mesmos convidados do nosso casamento. É mesmo, estão todos aqui. Exatamente igual. Passados alguns anos, estamos todos juntos novamente, e alguns usam a mesma roupa. Tiraram do armário aquele único traje escuro, válido tanto para a alegria quanto para a tristeza. Uma única diferença: o tempo. Hoje o dia está lindo, faz quase calor. Algo absurdo para um dia de fevereiro. Sim, o sol brilhou o tempo todo.”

A Delicadeza é um livro cheio de surpresas e momentos que causam sensações diversas no leitor. David Foenkinos nos transmite um ambiente extremamente real, os personagens, diante das descrições do escritor parecem se fazer presentes na nossa realidade, não é à toa que em algumas partes do livro o autor nos revela algumas músicas que estão sendo tocadas no momento em que os personagens vivenciam algo. Para quem gosta de narrativas com um tom poético esse é um prato cheio, o livro se encontra em um espaço onde as linhas de um parágrafo parecem versos que explodem sentimentos e reflexões em quem os lê. Recomendo, principalmente, para quem adora explorar o universo francês nos livros.

Editora: Rocco

Páginas: 192