Atalho

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Escrevi metade das minhas cartas no dia planejado.

Caneta, papel, borracha, quase não acho meu sapato.

Tem um cesto vazio ao meu lado e uma camisa no chão.

Escrevi metade das minhas cartas, mas penso que não.

Penso que o quadro está meio para cá,

mas o quadro insiste em zombar do que pensei ser a anatomia da mobília,

quase caí em desespero das pequenas praias do meio dia

onde decidi cantar a última música de passos lentos,

porque nunca aprendi a dançar.

Aprendi que não sou vidente, nem você,

calcei o primeiro sapato e lembrei que a poesia nunca é passado,

é presente.

Não me engano pelo fato de uma palavra causar uma tragédia,

é quase um engano saber ler, quando de fato a facada letal

vem do sadio momento em que me escondo na cozinha,

por causa da janela, por causa da janela.

Conheço ela, mas só de vista, quando olho no espelho

e o rebuliço de uma caixa vazia me lembra que de fato

existir é o ato mais caótico de mim/ti.

Kariane

Machado

E eu me perguntei o porquê de sempre lembrar.
A memória é como um machado primitivo,
aprendi a usá-la e agora sei da sua utilidade.
Queria não saber de nada.
Fechar os olhos diante do sublime que me aflige
quando percebo que a imagem borrada se reflete aqui.
Eu não pedi metade dessa fotografia que me traz lembranças
do que foi dito por um alguém que me arrancou um fio de cabelo
e fez dele um candelabro de anedotas,
que fez da pele uma carne morta e das palavras
o mau agouro.

Kariane

Canindé

Ao visitar o São Francisco,

Terra do calor e sem mar,

me senti quase um menino

solto no quintal a brincar.

 

Mas, de fato, sou uma menina

que carrega no triste olhar

o sonho de encher uma bacia

e com água as roupas lavar.

 

Passa o tempo e a cantoria

e eu não aprendo a lidar

com a seca da minha terrinha,

sem mato, sem fruto e sem mar.

 

Me pedem para sentar na escada

e com paciência esperar

que a infância seja lavada,

pois meu futuro é casar.

 

Fujo para o seco milharal

e peço para Deus afirmar

qual será meu destino afinal,

pois o que eu quero é cantar

 

as músicas da minha terrinha

e ao mar um beijo longo entregar.

 

Kariane

(Para minha avó)

 

 

O dia em que eu descobri o bordado

Eu sempre compreendi a dimensão das palavras, sempre enxerguei a força que um conjunto de letras possui e visualizei tudo isso, especialmente, através da poesia. Tudo acontece como um soco no estômago ou como o bater de asas de uma borboleta. É doce ou machuca. As palavras têm vida. Escrevo, logo existo. Desculpa, Descartes, sou confusa mesmo.

Às vezes certos diagnósticos da vida nos sufocam o tempo inteiro (olá, ansiedade) e buscamos meios de fugir de tudo isso, correr. Corra, Kari, corra.

Por muito tempo eu desenhei, gostava de ampliar pequenos desenhos que via nas revistas em quadrinhos. Mas um dia eu parei, pelo simples fato de não achar que os desenhos eram bons o bastante. Boba, nada é bom o bastante, só é bom, e suporta.

Um dia de ócio me levou a voltar a desenhar, não sabia o porquê mas eu precisava. Mas faltava algo, sei lá, algo que talvez trouxesse mais vida? Não sei, loucura minha. Resolvi bordar. Comprei os materiais sem saber como colocar a linha na agulha e sem saber qual tecido escolher, mas fui atrás, sem saber de muita coisa, mas, confiante.

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Na foto acima podemos ver o meu primeiro bordado. Fiz vendo um vídeo aleatório no youtube, achei fácil e também gostei do que dizia. Ame-se. Como vocês podem ver, eu comprei o tecido errado. Tudo bem, depois eu concertei esse acaso.

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Depois de escrever ame-se eu queria algo que realmente gritasse o que eu sou, o meu todo. Pensei em poesia, nossa, poesia, eu sou você, às vezes. Mas eu sabia que havia algo além, um tema maior. Literatura era o que eu queria. Agora com o tecido certo!

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Mas teve um certo ciúme no ar. Sabia que o Rimbaud ia se meter em toda essa história, ele sempre está comigo, bordar seu nome e uma rosa (minha flor preferida) era o mínimo que eu poderia fazer para meu jovem terrível. Não dá para ver muito bem, mas eu comecei a rosa com um tipo de vermelho e terminei com outro, porque o primeiro acabou e a outra cor eu comprei errada. Caminhei demais por você Rimbaud, obrigada.

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Quando eu bordo me sinto mais próxima de mim, um contato com o eu que diz “faz”, eu sou o todo. Minha mãe é artesã, será genética ou pura poesia dessa vida inacabada?

Kariane

 

Um outro mar

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Eu tenho medo.

Paciência no passo

do calçado da minha irmã.

Fortaleza é aqui,

no teu ombro amigo

que me aconchega de manhã

quando teimo em insistir

que tenho medo.

Será medo de mim?

Um dia viajo para o Piauí.

 

Com você.

 

Kariane

 

(Pequeno presente para minha irmã, que sonha em conhecer o mundo. Por sorte ela já sabe que é possível viajar com as palavras, até com as pequeninas palavras.)

Onde a lágrima atravessa a rua

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Florence Sène – 2018 

I

Onde a lágrima atravessa a rua

eu beijo a sua boca nua

que dobra no próximo quarteirão.

Eu me perdi. Me deixaram na avenida

cantando com várias crianças

que antes da minha chegada

gritavam pelo fim desse concreto

que separa o mar da calçada

e da barraca da Dona Flor,

onde eu compro minhas quentinhas

e algumas cartas de amor.

II

Eu desci sozinha uma avenida estranha,

carros vermelhos passaram por mim

e entregaram a falta que sinto da cor,

da saída e da pausa de um passo

que não consigo alcançar.

Será, que me permito, de fato, andar?

Kariane

Ne pleure pas, ton chagrin est le mien…

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Era quase noite quando o Imaginário ao lado da porta fixava uma cabeça bem perto do seu coração. Espaço vazio seria se fosse um braço, uma perna ou um pescoço. De fato, uma cabeça era essencial ao lado do órgão que por sinal não funcionava mais. Era um coração velho e com cortes causados pelos fortes ventos do verão. Perto da bancada, onde alguns livros de história pousavam, estava mais uma cabeça que olhava o feito do Imaginário, enquanto a primeira cabeça gritava por não entender o motivo de se encontrar fora da sua casa. As duas cabeças dialogavam, mas o velho coração chorava esperando estar ao lado da pele lisa e dos cabelos que não tinham formato. O encaixe se fez. A segunda cabeça encarava o sangue que caia e por fim cessava pelo corpo do Imaginário, a cena se fez tão bonita que os olhos da primeira cabeça começaram a chorar, o coração se banhou de lágrimas e sem esperar qualquer tipo de pergunta, adormeceu. O Imaginário andou pelo seu pequeno quarto e sentou no chão próximo a segunda cabeça e a beijou, bem abaixo do queixo, onde a marca do que nunca foi dito se encontrava em vermelho. Era quase dia quando se via pela janela um rosto e um pescoço que conversavam sobre os efeitos da presença e o fardo da ausência.

Kariane